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INIMIGOS NATURAIS
Pesquisadores criam insetos em laboratório para serem utilizados no controle biológico de pragas na agricultura.

O engenheiro agrônomo e empresário Adalberto Lúcio Borges realiza um trabalho minucioso. Ele cria insetos em laboratório para combater pragas em lavouras. O agrônomo foi o pioneiro na produção desses insetos em massa no Brasil e também o primeiro a conseguir licença exclusiva da Embrapa para produzir os bichos em escala de mercado. Hoje, sete anos depois, a Megabio – como é conhecida sua empresa – cria a vespa Trichogramma pretiosum, considerada inimiga natural de mais de 200 espécies de pragas que aparecem em várias culturas, como soja, milho, canade- açúcar, tomate, algodão etc (veja arte). No Brasil, segundo dados da Embrapa Sorgo e Milho, apenas seis empresas produzem a Trichogramma.

O interesse do empresário em produzir insetos em laboratório começou ainda na década de 80. "Havia descontrole no combate às pragas", diz. Nessa época, a Embrapa realizava pesquisas sobre o controle biológico das pragas e descobriu, em Londrina (PR), o bacolovírus, vírus natural para combater insetos nocivos à soja. Segundo Adalberto, essa foi a primeira inovação tecnológica que surgiu no Brasil e alertou que o uso de agrotóxicos poderia ser reduzido.

Nessa mesma época, a Embrapa tinha outro estudo pronto sobre o controle da lagarta do cartucho do milho que, apesar do nome, também ataca outras lavouras. "Adquiri a tecnologia e estava credenciado pela Embrapa a produzir em pequenas quantidades", relembra Adalberto. Mas ele queria investir no negócio e passou a desenvolver tecnologias próprias para criar as vespas em grandes quantidades, com o objetivo de comercializá-las. "Queria entrar no mercado, mas também produzir insetos de boa qualidade". Para Ivan Cruz, pesquisador e chefe geral da Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas (MG), o controle biológico é importante porque é alternativa segura ao uso de defensivos agrícolas. "Além do mais, a lagarta do cartucho do milho já se tornou resistente ao agrotóxico em alguns lugares do país.

Com isso, a praga não morre mais", explica. Segundo ele, há também outras vantagens como maior eficiência, baixo custo e o uso de tecnologia pura. A Trichogramma é uma espécie do cerrado, mas com a abertura das fronteiras agrícolas a vespa foi perdendo espaço para as pragas. "Era preciso fazer o repovoamento, recompor o meio ambiente", afirma Adalberto.

As primeiras matrizes do seu laboratório foram fornecidas pela própria Embrapa, que importou os insetos da Colômbia e, aqui no Brasil, fez adaptações no processo de criação. Depois disso, o agrônomo ainda demorou dois anos investindo em pesquisas para o inseto chegar ao mercado com preço acessível a todos os produtores. A produção de Trichogramma em laboratório exige cuidados especiais. Para produzir a vespa é necessário criar outro inseto, pois a Trichogramma usa o ovo da praga para se reproduzir.

"Ao fazer a postura dentro desse ovo, ela já mata a lagarta (praga) antes de ela nascer. A Trichogramma precisa do alimento que seria da lagarta para gerar outra vespa. Com isso, nasce a Trichogramma, que fará o repovoamento natural", explica Adalberto. O ciclo de reprodução demora cerca de nove dias, mas pode variar de acordo com a temperatura, pois é ela que define o processo de eclosão. A Megabio é franqueada da Embrapa e paga royalties à empresa. A produção é de 35 milhões de insetos por dia, o que vai gerar cerca de 60 milhões de Trichogramma, já que um ovo pode produzir até duas vespas.

Se produzir a Trichogramma pretiosum é complicado, adquirir a vespa é mais simples do que se imagina. Os insetos são enviados via sedex – isso mesmo – aos produtores e são postados ainda na fase de ovo. São acondicionados em uma cartolina e em embalagem com ar suficiente para mantê-los vivos. "Pode acontecer de o correio atrasar e os insetos nascerem no meio do caminho", diz Adalberto. Ainda assim, o produtor não é prejudicado, pois ele pode aplicar os insetos nascidos na lavoura.

Cada cartolina carrega, em média, cerca de 42 mil ovos, que são recortados e colocados na lavoura quando chegam ao destino (ver arte). As vespas já nascem na fase adulta. Um hectare gasta cerca de três cartelas, com custo de 18 reais no total, ou seis reais por cartolina. Para Adalberto, é um custo pequeno dados os benefícios obtidos do controle biológico das pragas. "O principal deles é a redução do uso de defensivos, que varia de 80 a 100%, além de a Trichogramma ser mais em conta. A redução do custo chega a 50%", revela. O agrônomo ainda enumera outras vantagens, como alimentos mais saudáveis, o que gera mais renda para o agricultor, e a formação de um ecossistema, pois com a Trichogramma surgem outros insetos benéficos. "E não há risco de intoxicação do solo e do funcionário".

A Megabio – situada em Uberlândia – tem clientes no Brasil todo, cerca de 400 produtores. Noventa por cento são grandes agricultores, que plantam mais de mil hectares. Para Adalberto, há explicação disso: "Não temos apoio dos órgãos estaduais de assistência técnica para fazer essa tecnologia chegar aos pequenos produtores, à exceção do Rio Grande do Sul e do Paraná.".

Apesar dos avanços, Adalberto afirma que ainda estamos a anos luz de países vizinhos, como a Colômbia, por exemplo. O Brasil, segundo ele, foi um dos últimos países a introduzir a Trichogramma nas lavouras. China, Colômbia, Peru, Estados Unidos investem no controle biológico das pragas há mais de 100 anos. "Nos Estados Unidos é possível comprar essa vespa em supermercado", compara. Mas, apesar das dificuldades, o agrônomo quer prosseguir nas pesquisas. Novamente, junto à Embrapa, desenvolve pesquisas para produção de outros tipos de insetos.

Segundo o pesquisador da Embrapa Sorgo e Milho, Ivan Cruz, um dos novos insetos que poderia ser produzido em laboratório é a joaninha. "Já temos pronto o processo de produção de cinco espécies. Agora é fazer parcerias para produzi-las em escala industrial", diz. "Daqui a três anos deverão estar no mercado", planeja Adalberto.

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