Artigos Publicados

Voltar para Artigos

REDUÇÃO DOS CUSTOS PELO CONTROLE BIOLÓGICO DA LAGARTA DO CARTUCHO

A principal vantagem do controle biológico da lagarta-do-cartucho vem do bolso, ou seja, da redução de custos pelo manejo da praga. A forma tradicional de Pulverização exige, normalmente, um trator, um pulverizador e dois funcionários da propriedade encarregados em fazer a aplicação do inseticida. Com o controle biológico, a presença das máquinas na lavoura, em alguns casos, é totalmente eliminada e os custos do Trichogramma, um tipo de vespinha que parasita os ovos da lagarta, não ultrapassam os da aplicação. Segundo o consultor da Megabio, Adalberto Lúcio Borges, a aplicação é muito simples, já que ela é feita somente com a utilização da mão-de-obra da própria fazenda. A título de comparação, somente as despesas do produtor com o trator são equivalentes aos custos do inseto, ou seja, ele ganha o trabalho do tratorista, mais cara que a do aplicador, e os inseticidas que deixarão de ser pulverizados. Uma redução de 60 a 70% em relação aos custos da aplicação convencional. Segundo Borges, logo que o ataque da praga for detectado, a distribuição do Trichogramma deve ser feita na área de plantio. A quantidade do produto é calculada de maneira que seja suficiente para cobrir todos os pontos estratégicos da lavoura. "Você não pode, por exemplo, liberar todos os insetos na entrada da lavoura e achar que resolveu o seu problema", alerta o profissional.

Aplicação

Para Borges, a média é de 100 mil insetos por hectare para uma aplicação, porque muitos se perdem e outros tantos migram para outras áreas. Por isso, o consultor recomenda que seja liberado um número maior do que o necessário. “Em um dia bem ensolarado, bem quente, a aplicação deve ser realizada antes das 10 horas e após as 16 horas. Já em um dia nublado, ela pode ser feita durante todo o dia”, recomenda. Ele lembra ainda que, como entram na lavoura na forma de ovos, se for preciso distribuí-los nesse intervalo, eles devem ser posicionados contra o sol para que não ressequem e não morram os insetos.

Quando da liberação das vespinhas na lavoura, Borges recomenda que a distribuição seja uniforme, na fração de cartela por 165 m2 de área, o que totalizariam 60 pontos/ha. “Se você aumenta muito a área trabalhada, pode acontecer de alguns pontos ficarem sem cobertura, pois o inseto, apesar de voar, é muito pequeno e possui um poder de locomoção reduzido”, completa Adalberto Borges.

No verão, quando as temperaturas ficam em torno de 30°C, o tempo entre a postura dos ovos pela mariposa e o nascimento das lagartas é de dois dias e, como a vespinha parasita somente os ovos, quanto mais cedo ela chegar para botar e impedir o surgimento de pragas, melhor. “Se a vespa encontrar um ovo com o embrião da lagarta já formado é tarde demais, porque ela precisa do ovo completo para gerar uma nova vespinha”, explica Adalberto Borges. De acordo com o consultor, como as vespinhas não geram o seu próprio ovo, elas precisam do ovo de uma praga para garantir a sua procriação.

Metamorfose ambulante

“Quando a vespa injeta o seu ovopositor no ovo da praga a fim de garantir a gestação dos seus descendentes, ela mata automaticamente o futuro embrião da lagarta, pois é liberada nesse momento uma poderosa toxina que encerra o seu ciclo de desenvolvimento", ressalta o consultor. Assim, toda a formação da vespinha é processada dentro do ovo que, ao nascer, já é um inseto adulto, pronto para agir. O parasitismo pode ser verificado cerca de três a quatro dias após a postura, pois os ovos parasitados tornam-se enegrecidos. O ciclo de vida do parasitóide tem uma média de nove dias. O período de incubação da praga depende mais da temperatura do que da umidade. Quanto maior a temperatura, menor é o ciclo larval. A fecundidade da Spodoptera frugiperda também sofre influência da temperatura. À medida que a temperatura cai, aumenta não só o número de postura, mas também o número de ovos, que varia de 50 a 600. Borges diz que a lavoura de milho safrinha para produção de sementes e silagem tende a ser altamente infestada por lagartas no inverno. Entre os fatores e os motivos, ele cita o alongamento do ciclo da lagarta em função da baixa temperatura, pouca presença de inimigos naturais típicos das safras de verão, como é o caso da tesourinha, e a concentração das pragas em determinadas regiões devido à redução do plantio nessa época do ano. "Em uma propriedade onde são cultivadas culturas hospedeiras diferentes, a mariposa pode migrar de uma para outra a fim de defender o alimento dos seus descendentes", diz. Ele acrescenta que a vespinha só se reproduz enquanto houver ovo para a sua multiplicação, independente da cultura. “Se houver mais a sua fonte de postura, a qual é o ovo da mariposa, a última geração morre sem deixar descendentes”, ensina Adalberto Borges.

Inimigos

A lagarta-do-cartucho tem, em contrapartida, mais ou menos 30 inimigos naturais e as vespinhas, além de eficientes, são mais fáceis de serem criadas em laboratório. Ele explica que a tesourinha, por exemplo, tanto ataca o ovo quanto a lagarta. O mesmo não acontece com a vespinha, que parasita somente o ovo, além de ter sua produção em laboratório inviável economicamente. “Ambos são insetos nativos do cerrado, que foram eliminados com o aumento da fronteira agrícola, a modernização da agricultura e as constantes e crescentes aplicações de defensivos”, lamenta. Quanto ao número de trabalhadores necessários para a liberação das vespinhas, o consultor afirma que apenas uma pessoa, durante oito horas por dia, consegue cobrir até 50 hectares e que o valor do produto e da aplicação é de R$18,58 por hectare. “Só os custos do trator por hectare chegam a R$30,00”, destaca. Exemplificando, ele cita a aplicação de defensivos na água de irrigação, onde pode ser comprovado que o índice de aproveitamento do produto ficam em torno de apenas 6%, ou seja, 94% do volume aplicado cai no solo e não atinge o alvo biológico. “Aparentemente, os custos são menores, mas a relação custo-benefício não compensa”, calcula. Borges salienta que, quando o produtor pratica o manejo integrado de pragas através do controle biológico e da redução da aplicação de agroquímicos, ele agrega valor aos seus produtos, além de ganhar mais por quantidade produzida, uma vez que o peso de sua safra não será afetado por pragas como a lagarta-do-cartucho.

Produtividade

"A planta danificada pela praga vai produzir menos e, conseqüentemente, o produtor ganhará menos. Se a colheita for para a produção de silagem, o produto não será de qualidade, porque o silo pode ser contaminado", avisa Adalberto Borges. Ele destaca que se a lagarta atingir o pendão do milho, ela pode destruir até 40% da produtividade e relata que já foram
constatadas perdas de até 60% na produção. Ele explica que como a praga é canibal, dificilmente o produtor irá encontrar mais de uma no cartucho e reitera que o seu primeiro alimento é o ovo e, posteriormente, as folhas do milho. “Quando há competição por comida, a mais forte come a mais fraca”, ressalta. O consultor calcula em cerca de R$ 1.500,00 por hectare os custos de produção do milho e uma média de R$50,00 por hectare para o controle químico da lagarta, ou seja, o controle biológico sai por menos da metade, uma vez que ele é calculado em, aproximadamente, R$ 19,00 por hectare. “A lagarta-do-cartucho provoca perdasde até 30% da produção, o que significa 30 sacas por hectare. É preciso levar em conta a energia que a planta dispensou para recuperar a sua área foliar comida pela lagarta, o que contribui também para a queda da produtividade e danos diretos na espiga. É possível encontrar no campo plantas com apenas uma espiga pequena porque a lavoura precisou de muita energia para recuperar a sua área foliar, bem como para a formação dos grãos”, comenta o consultor. A lagarta pode destruir mais de 30% da produtividade, mesmo com a aplicação de defensivos e o agricultor pode não conseguir reduzir as perdas, pois o controle foi feito inadequadamente. Segundo Borges, o contínuo uso de pesticidas tem provocado a ressurgência da praga, ocasionando a mortalidade de uma série de insetos benéficos.

Inimigos naturais podem salvar a lavoura

Em 1899, foi registrado o primeiro grande surto da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) nas lavouras de milho, mas o inseto já era reconhecido como praga desde 1797. o surto ocorreu nos Estados Unidos e em 1964 foi a vez de um ataque nas lavouras brasileiras. A conseqüência foi um estrago enorme não só nas lavouras de milho, mas também nas plantações de arroz e em pastagens. Mais de dois séculos após o seu aparecimento, a lagarta ainda ameaça os agricultores e é considerada uma das principais pragas da cultura de milho em todo o continente americano. Para combate-la é preciso aplicar agrotóxicos nas lavouras, o que causa prejuízos ainda maiores. Além de aumentar o custo da produção, esses “venenos” podem contaminar o meio ambiente, a pessoa que o aplica e o próprio milho. Uma alternativa, identificada por pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo, é contar com a ajuda de um inimigo natural dessa praga: Trichogramma, uma vespa minúscula que parasita o ovo da lagarta-do-cartucho.

Adotar recursos da própria natureza no combate a pragas, como no caso da vespinha e da lagarta-do-cartucho, caracteriza o controle biológico. Na Embrapa, uma equipe de pesquisadores coordenada pelo engenheiro agrônomo e entomologista Ivan Cruz acredita que essa seja a melhor alternativa para proteger a lavoura de milho. Com o apoio da Fapemig eles identificam, estudam e criam esse e outros inimigos naturais da S. frugiperda. Os resultados são produtos mais baratos e de melhor qualidade.

Produção Nacional

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de milho. São 13 milhões de hectares de área plantada e uma produção anual estimada em 40 milhões de toneladas de grãos. Mas no caminho entre a lavoura e o consumidor há muitas perdas. Parte da produção é deixada para trás na colheita, no armazenamento e, principalmente, devido ao ataque da lagarta-do-cartucho que reduz de 15 a 34% o rendimento do grão. Os prejuízos econômicos causados por essa praga, somente na cultura de milho, são estimados em US$400 milhões por ano. Mas a Spodoptera frugiperda também causa danos às plantações de sorgo, trigo, arroz, alfafa, feijão, amendoim, tomate, algodão, batata, repolho, espinafre, abóbora e couve. Nos últimos anos, sua ação tem sido cada vez mais severa. Segundo os pesquisadores da Embrapa, isso se deve ao desequilíbrio ecológico e, no caso do milho, ao aumento da exploração da cultura que, hoje, é cultivada em todas as regiões do País e, praticamente, durante o ano todo.

Com o aparecimento das superpragas, a tendência é aumentar a dose de agrotóxico e diminuir os intervalos de aplicação. No entanto, na seleção da espécie contínua, pragas cada vez mais resistentes vão surgindo e o ciclo recomeça com doses ainda maiores de “venenos” ou mistura de diferentes produtos químicos.

Inimigos Naturais

O que muitos produtores rurais ignoram é que a lagarta-do-cartucho, assim como todas as pragas, possuem inimigos naturais. Para utilizar o controle biológico, o primeiro passo é identificar esses inimigos que podem ser predadores ou parasitas. A joaninha é um exemplo de predador, pois ela mata a presa para comer. Já a vespinha Trichogramma é um parasita. Ela depende de um hospedeiro para sobreviver que, nesse caso, é o ovo da lagarta. É possível identificar inimigos naturais para cada fase da vida da praga. A vespinha ataca o ovo, mas o agente do controle biológico poderia atuar na larva, na pupa, ou no adulto. Segundo Ivan Cruz, a vespinha é a melhor opção para a cultura de milho, pois atua na primeira fase biológica da praga e a elimina antes das plantas serem atacadas. Mas, por precaução, os pesquisadores da Embrapa criaram também um predador de ovos e das lagartas da praga: um inseto popularmente chamado de tesourinha. A tesourinha mora no milho, onde bota os ovos no cartucho (folhas) e seus filhotes, que ali crescem, comem os ovos e as lagartas da praga, além dos pulgões presentes na planta. Os pássaros também atuam como agentes do controle biológico, pois muitas pragas são presas fáceis para eles. Outros inimigos naturais conhecidos dos pesquisadores são os microrganismos como os vírus (baculovírus), os fungos e as bactérias.

Voltar para Artigos