Meio Ambiente

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PROTEÇÃO COM TECNOLOGIA
Eugênio Passos Schroder, Eng. Agrônomo, Dr. Consultor em Tecnologia de Aplicação.

Complementares sim, não necessariamente concorrentes! Esta é a visão que devemos ter quando comparamos tecnologia de aplicação terrestre e aérea na cultura da soja. Cada uma apresenta características próprias, tanto do ponto de vista técnico quanto operacional, e o seu conhecimento é fundamental para a tomada de decisão de quando adotar uma ou outra técnica. Pulverizações aéreas não podem ser efetuadas a menos de 500 metros de cidades, nem em locais com risco de segurança de vôo como sob redes elétricas, requerendo a adoção de equipamentos terrestres. Por outro lado, o trânsito de pulverizadores terrestres fica por vezes limitado pelo excesso de umidade no solo; noutras ocasiões, a rápida disseminação de uma praga exige combate rápido na lavoura; são situações que fazem o agricultor, mesmo dispondo de equipamentos terrestres próprios, contratar o serviço de uma empresa de aviação agrícola.

O importante é que, seja qual for o sistema empregado, a aplicação seja bem conduzida, para controlar a praga com efìcácia. Recente pesquisa de mestrado desenvolvida por Marcelo Prado Lima da Silva, na Universidade Federal de Santa Maria, mostrou que tanto aeronaves agrícolas quanto pulverizadores terrestres podem ser empregados para controlar as doenças da soja, pois não foram observadas diferenças na produtividade da cultura entre os tratamentos.

Defensivos na Agricultura

A cultura da soja é a maior usuária de produtos fitossanitários no Brasil (mercado de aproximadamente um biIhão de dólares), por ser a espécie cultivada em maior área (20 milhões de hectares) e ter sua produtividade limitada pela presença de plantas daninhas, insetos e doenças.
É também a maior usuária dos serviços de aviação agrícola no Brasil, com destaque para as regiões centro-oeste e sul, com área aplicada estimada em seis milhões de hectares anuais, destacando-se os tratamentos com inseticidas e fungicidas, seguidos pelas pulverizações de herbicidas. Existe uma forte relação histórica entre o crescimento da soja e da aviação agrícola no país ao longo das últimas três décadas.

Problemas Fitossanitários

É no dia-a-dia de condução de uma lavoura de soja que nos deparamos com uma série de problemas fìtossanitários citados a seguir, os quais podem comprometer a produtividade e a rentabilidade da atividade.
As plantas daninhas competem por água, nutrientes, luz e espaço com a soja, principalmente no início do ciclo, devido ao seu rápido e agressivo crescimento, Ievando vantagem expressiva sob condições inadequadas como estresse hídrico.
O manejo das invasoras tem sido realizado através de técnicas como o plantio direto que, além de evitar perdas por erosão e manter o terreno fisicamente mais estruturado e com maior umidade, reduz o banco de sementes no solo e propicia o controle precocemente.
Os insetos mais prejudiciais são as lagartas desfolhadoras, seguidos pelos percevejos, que sugam as vagens. Ambos causam danos severos na produção e o seu manejo requer o acompanhamento populacional desde o início do ciclo da soja e a seleção de inseticidas seletivos.
As doenças podem ocorrer precocemente, como é o caso do oídio, ou mais tardiamente, como é o caso da ferrugem e as denominadas doenças de final de ciclo (DFC), como a mancha parda e o crestamento foliar.

O Alvo Biológico

Cada problema fitossanitário configura um alvo biológico diferente a ser atingido nas aplicações e o seu profundo conhecimento é imprescindível para a seleção do tipo de pulverização a realizar.
Para atingir a vegetação a ser dessecada antes da semeadura, com herbicidas sistêmicos que se translocam até a raiz, como o glifosate, podemos adotar gotas grandes, menos sujeitas à evaporação e deriva, as quais irão se depositar principalmente no topo das invasoras.
Quando o problema a controlar são as lagartas desfolhadoras, o alvo é móvel, característica destes insetos. Nesta situação, podemos contar com o auxílio desta mobilidade para ampliar a exposição dos insetos às gotas depositadas sobre a cultura, especialmente para inseticidas com ação de ingestão, como os biológicos e os reguladores de crescimento de insetos. Pulverizações ao entardecer também poderão incrementar a exposição do alvo, devido ao fato dos insetos migrarem da base das plantas para as folhas mais jovens das brotações.
Já no caso dos percevejos, que ficam junto às vagens nas porções mais inferiores da soja, há necessidade de gotas menores para assegurar maior penetração da pulverização no dossel foliar.
Nas aplicações de fungicidas, especialmente visando o controle de ferrugem e DFC, há necessidade de depositar os produtos desde a base das plantas, o que exige o emprego de gotas pequenas. Mesmo no caso de fungicidas sistêmicos, devido ao movimento ser caracteristicamente de baixo para cima, não basta depositar o fungicida no topo da cultura.

Nível de Dano e de Controle

A decisão de quando aplicar um produto fitossanitário requer conhecimentos sobre o agrotóxico, a praga, seu dano na lavoura, o tempo necessário para pulverizar toda a área com o equipamento disponível e a avaliação econômica do tratamento. Denomina-se nível de dano econômico a população de plantas daninhas ou de insetos, bem como o número de lesões de fungos ou outros patógenos, que causam uma redução na produtividade da cultura maior que o custo do tratamento. Não se deve permitir que a população da praga atinja este nível.
O nível de controle é indicado por uma população da praga menor que a do nível de dano econômico, de modo que, iniciando-se a aplicação do agrotóxico naquele momento, será possível concluí-la com um tratamento mais barato que o dano causado até aquela ocasião, tornando a operação economicamente compensadora.
Os níveis de danos econômicos são estabelecidos em trabalhos de experimentação agrícola e estão disponíveis em publicações especializadas. Para determinar o nível de controle, requerse do administrador rural o conhecimento destes dados de pesquisa, do valor da produção, do custo do tratamento (produto + aplicação) e do tempo necessário para pulverizar toda a área. De um modo geral, aplicações terrestres necessitam ser iniciadas mais cedo, para tratar toda a lavoura, enquanto as aéreas podem ser retardadas porque são efetuadas com grande rapidez. Este fator difere o nível de controle entre as pulverizações realizadas com os diferentes sistemas de aplicação.
Ao momento oportuno de tratar a lavoura chamamos de "timing". O ideal é retardar ao máximo as pulverizações de inseticidas, de modo a reduzir o número de tratamentos e preservar insetos úteis.

Condições Ambientais

O êxito das pulverizações depende muito das condições ambientais. Temperatura e umidade relativa do ar afetam a evaporação das gotas aspergidas, recomendando-se evitar operações com temperaturas superiores a 30ºC e umidade inferior a 55%.
A velocidade do vento influi diretamente sobre a deriva de gotas, caracterizada pelo arraste lateral, que pode causar grandes prejuízos se atingirem áreas indesejadas, contaminando mananciais hídricos, solo, animais, pessoas e causando fitotoxidade a plantas sensíveis. O ideal é que as aplicações sejam realizadas com ventos entre 3 e 10 km/h, pois o vento nulo favorece a formação de correntes ascendentes e velocidades superiores a 10 km/h oferecem maior risco de deriva. Porém, em regiões litorâneas é muito freqüente a necessidade de operar com ventos mais intensos, limitando-se a recomendação na velocidade de 15 km/h. Ventos com rajadas são altamente condenáveis.
Estudos têm mostrado que a temperatura do ar e a umidade relativa variam ao longo do dia segundo um comportamento bem característico para cada local. Os valores são mais críticos em alguns meses do ano, podendo-se determinar qual o fator mais limitante para cada região.
Em debates sobre tecnologia de aplicação, é freqüente ouvirmos prescrições de horários ideais para as operações. A programação das pulverizações baseadas apenas em dados médios diários não é recomendada. O procedimento correto é o monitoramento dos fatores pelos operadores durante as pulverizações, utilizando-se de anemômetros e termo-higrômetros portáteis, realizando os ajustes necessários no equipamento de aplicação e interrompendo o trabalho quando as condições tornarem-se limitantes.
Desta forma, é possível estender o número de horas de trabalho em dias favoráveis, tratando mais hectares ao longo do dia, concluindo a área mais rapidamente.

Responsabilidade do Agricultor

Agricultores que optam pelas pulverizações terrestres com equipamentos próprios assumem a total responsabilidade pela operação, tanto sob aspectos técnicos como ambientais e de segurança do trabalho.
Ao contratar um serviço terceirizado de pulverização aérea, o agricultor repassa parte desta responsabilidade para a empresa aplicadora, fato que deve ser levado em conta no momento da seleção da técnica de aplicação que será adotada na lavoura.
A correta manutenção dos pulverizadores é de responsabilidade de seus proprietários e constitui-se num fator primordial para aplicações seguras para as plantas, pessoas e ambiente. Em nossas visitas às propriedades rurais, temos encontrado, com freqüência, equipamentos mal conservados e mal regulados sendo utilizados para aplicar insumos na cultura da soja.
Em outras situações, especialmente quando os equipamentos são mais novos, com acessórios mais modernos e os operadores possuem maior escolaridade e domínio dos procedimentos para a adequada manutenção e operação, temos observado pulverizadores em excelentes condições e uso.
Um estudo sobre a real situação dos equipamentos disponíveis nas propriedades rurais brasileiras está sendo desenvolvido desde 1998 por pesquisadores da LINESP em Botucatu, SP, e da Faculdade de Bandeirantes, PR, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
Trata-se do projeto IPP (Inspeção Periódica de Pulverizadores), que avalia 20 itens dos pulverizadores nas propriedades, sob condições reais de trabalho. É uma pesquisa de grande relevância para a agricultura brasileira, tendo recebido o Prêmio Guerdau Melhores da Terra na Expointer 2003, em Esteio, RS. Este é o principal prêmio do setor de máquinas agrícolas do Brasil e o trabaIho citado foi distinguido na categoria Pesquisa de Desenvolvimento, concorrendo com outros 28 projetos.
Seus autores, Ulisses Antuniassi e Marcos Gandolfo, cederam gentilmente dados que serão apresentados na VII Conferência Mundial de Pesquisa de Soja, em março de 2004, sobre pulverizadores dos Estados de São Paulo e Paraná. Os pesquisadores observaram que todos os pulverizadores utilizados em soja avaliados mostravam algum tipo de problema.
Deve-se destacar que o aumento de dosagem da ordem de 20% na média dos equipamentos avaliados é muito grave do ponto de vista ambiental, pois os agrotóxicos devem ser utilizados somente nas doses recomendadas, bem como sob a ótica econômica, já que um desperdício de produto químico desta magnitude tem custo superior ao valor da aplicação, seja ela terrestre ou aérea.

Conhecendo Melhor as Gotas

A cobertura das plantas pela pulverização deve ser uniforme e com uma quantidade de gotas que propicie uma distribuição por todo o alvo visado, atendendo a necessidade de cobertura preconizada pelo fabricante de cada agrotóxico. A densidade de gotas determinada pelo número de gotas por centímetro quadrado e varia com o volume aplicado, regulagem dos bicos, tipo de formulação do agroquímico, entre outros fatores.
A maioria das pulverizações aéreas caracteriza-se por gerar notas com diâmetro inferior a 300 micrometros (Pm), ou seja, 0,3 milímetros, o que propicia que se depositem densidades entre 20 e 30 gotas/cm2 empregando-se volumes de calda inferiores a 30 L/ha. A formação da gota não depende apenas da pressão da bomba de pulverização e das características dos bicos, mas também, e, principalmente, do efeito do vento relativo do deslocamento da aeronave sobre as gotas em formação. Esta corrente de ar, a velocidades superiores a l70 km/h, fraciona o líquido em gotas pequenas, constituindo-se num fator que as difere substancialmente das pulverizações com equipamentos terrestres.
Os pulverizadores, via de regra, são equipados com pontas de pulverização que geram gotas maiores ou semelhantes às aéreas, mas raramente menores. Este fato explica porque os volumes de calda aplicados por hectare são bem superiores, geralmente ultrapassando os 150 L/ha , para depositarem-se as mesmas 20 ou 30 gotas/cm2.
Ainda observamos recomendações técnicas de densidades de gotas, tidas como ideais, em valores muito elevados, da ordem de 50 e até 70 gotas/cm2. Nossa experiência de campo de mais de duas décadas com pulverizações aéreas e terrestres comprova não haver necessidade de tantas gotas e, o que é mais importante, é muito difícil depositar tamanha densidade de gotas de modo uniforme em todo o alvo.
Devemos considerar que as plantas de soja desenvolvidas (por exemplo, no estádio R5) apresentam várias camadas de folhas, constituindo uma área foliar considerável por metro de terreno, medida pela relação área de folhas dividida pela área do terreno, denominada de índice de área foliar.
Considerando que este índice atinja o valor 5, que a densidade de gotas pretendida seja de 70 gotas/cm2 e que as folhas têm duas faces, o que dobra a superfície a ser atingida, para recobrir todas as faces de todas as folhas presentes sobre um centímetro quadrado de solo seria necessário que chegasse sobre o topo da cultura a cifra impensável de 700 gotas/cm2.
Tal fato exigiria um volume de calda excessivamente grande e dispendioso, além de incrementar tremendamente o tempo necessário para tratar a lavoura. Além disso, as perdas por escorrimento tornam-se significativas, comprometendo a ação dos produtos, o custo do tratamento e a contaminação ambiental.
Temos obtido excelentes controles de insetos e doenças com densidades entre 50 e 100 gotas/cm2 no topo da cultura. As gotas com maiores diâmetros depositam-se nas folhas superiores e as menores penetram no dossel foliar, atingindo as partes mais baixas das plantas, em densidades da ordem de 10 a 20 gotas/cm2, plenamente suficientes para o controle dos problemas fitossanitários.
Para os produtos com ação localizada, ou de contato, estas densidades têm sido muito eficazes. Para aqueles com mobilidade na planta, seja por ação sistêmica, translaminar ou mesostêmica, a redistribuição do ingrediente ativo tem proporcionado excelentes desempenhos com densidades ainda menores.
O tamanho de gotas requerido para promover a cobertura necessária para cada situação pode ser obtido pelo ajuste dos bicos de pulverização e da pressão de trabalho.

Muita ou pouca Água?

Um dos assuntos que demandam maior debate nas pulverizações em soja é o volume de aplicação, até porque existe o hábito de comparar com o volume utilizado nas terrestres com as aéreas, o que é um contra-senso, pois utilizam diferentes bicos, altura de barra ao alvo, pressão de pulverização, velocidade, etc.
Ainda existe, por parte de profissionais e agricultores, a idéia de que quanto mais água melhor, ou seja, que maiores volumes de calda resultam em melhor controle dos problemas fitossanitários. Isto não é verdade. E certo que maiores volumes podem resultar em melhor cobertura das plantas, mas também podem proporcionar maior escorrimento e perdas de insumo para o solo quando se utilizam gotas grandes, bem como grande formação de micro-gotas quando o volume é incrementado via aumento de pressão de pulverização, o que resulta em enormes perdas por evaporação e deriva, com sérios riscos de contaminação ambiental.
A tendência mundial é o uso de volumes cada vez menores. Trabalhos apresentados em congressos em todo o mundo e o desenvolvimento de novos equipamentos de pulverização caminham todos neste sentido. Hoje, a maioria das pulverizações aéreas em soja realizadas no Brasil adotam volumes inferiores a 20 litros de calda por hectare e, no futuro próximo, raramente serão pulverizados mais do que apenas 10 litros. De modo similar, as aplicações terrestres utilizam menos de 150 litros de calda por hectare, com forte tendência para o emprego de taxas inferiores a 100 litros.
Quantas gotas chegam ao topo da cultura empregando-se estes volumes? A resposta pode ser obtida com cálculos matemáticos simples, considerando-se que as gotas sejam redondas, iguais entre si, adotando-se a equação do volume da esfera.
Assim, uma pulverização aérea de 20 L/ha com gotas de 200 mm resultará na produção de uma quantidade de gotas idêntica a uma aplicação terrestre com volume de 160 L/ha e gotas de 400 mm. Portanto, muita ou pouca água não é um fator que assegure o sucesso do uso de um agroquímico.

A Terrível Deriva

O tema deriva requer cuidados tanto nas pulverizações aéreas quanto nas terrestres. Não é raro o agricultor interromper uma aplicação aérea devido à ocorrência de deriva com risco para áreas vizinhas e pretender continuá-la com pulverizadores terrestres, por julgar que não causam deriva. Não se pode conceber que as aplicações com pulverizadores não estejam sujeitas aos efeitos da deriva.
Observações sobre deriva de herbicidas dessecantes, em áreas de semeadura direta de soja, têm indicado que plantas sensíveis podem ter sua produtividade comprometida severamente quando a quantidade de ingrediente ativo arrastado é substancial. O problema torna-se mais crítico com o aumento da área cultivada com soja geneticamente modificada, resistente ao herbicida glifosate.
Outro caso que requer cuidados redobrados é a dessecação pré-colheita da soja com o herbicida paraquat. Este segmento de mercado é muito importante, por permitir a colheita antecipada e livre de plantas daninhas tardias. Nossas pesquisas demonstraram que a dessecação aérea de soja é viável quando são respeitadas as recomendações técnicas da aplicação.
No caso de pulverizações de inseticidas, a deriva pode causar a intoxicação de pessoas e contaminação de peixes, água, alimentos e solo. O planejamento da aplicação e o monitoramento das condições ambientais é muito importante.

Tudo bem Misturado

O preparo das caldas de agrotóxicos deve ser realizado com agitação vigorosa dos produtos com água, para assegurar a uniformidade da mistura. Água de qualidade é fundamental para uma boa aplicação. Os fabricantes formulam os agrotóxicos para serem misturados com água livre de impurezas e problemas de dureza e alcalinidade.
Água de má qualidade causa entupimentos de bicos e desgaste do equipamento. No caso de entupimento de um bico de pulverizador terrestre, a aplicação deve ser parada imediatamente e o problema solucionado, caso contrário, uma faixa com cerca de 50 centímetros de largura deixará de ser tratada, comprometendo o controle da praga visada.
Por outro lado, em aplicações aéreas as gotas geradas em cada bico misturam-se com as vizinhas, formando uma "cortina" uniforme. Por este motivo, não há necessidade de suspender a aplicação no caso de um bico entupir. Aliás, o pouso com aeronave carregada deve ser evitado por razões de segurança, recomendando-se concluir a carga para só então retornar à pista, quando o problema será solucionado durante o novo carregamento.
Outro item que requer atenção é a compatibilidade dos agrotóxicos quando aplicados simultaneamente, como costuma ocorrer nas pulverizações de inseticidas e fungicidas em soja. Nas situações, em que adjuvantes forem empregados, são necessários cuidados quanto à ordem de inclusão dos insumos e observação visual da mistura.
No momento de carregar o pulverizador terrestre e dosar o agrotóxico, além da mistura vigorosa para uniformizar a calda, um outro cuidado deve ser tomado. Trata-se do lastro da carga anterior que deve ser deixado no interior do tanque para acionar o sistema de carregamento através do sistema de retorno. O mecanismo é empregado principalmente nos equipamentos montados nos três pontos do trator, com tanques de 400 e 800 litros.
Os fabricantes recomendam manter cerca de 50 litros de calda no tanque para acionar a sucção de água da fonte para o pulverizador. Ocorre que é difícil para o operador saber o momento de suspender a pulverização sem esvaziar toda a calda, bem como deixar calda em excesso, o que resulta em lastros de volumes diversos. Ao preparar cada calda, o operador tende a colocar a quantidade de agroquímico total para o número de hectares que o equipamento pode tratar, esquecendo de descontar o volume do lastro, o que resulta em superdosagem de produto, causando ônus desnecessário e contaminação.
Para evitar este problema, Jader Ribeiro Pinto desenvolveu um "Protótipo de Indicador de Reabastecimento" em seu curso de mestrado na Universidade Federal de Pelotas. O dispositivo alerta, através de um sinal sonoro, ao operador quando o lastro chega ao volume desejado; a pulverização é suspensa e o carregamento realizado dosando o agroquímico sempre com desconto de lastro do mesmo tamanho.
Aplicações Aéreas
Os agricultores que utilizam aplicações aéreas consideram que rapidez e precisão destacam-se entre as vantagens desta tecnologia, pois mais de cem hectares podem ser tratados em apenas uma hora de trabalho, inclusive após uma chuva, por independer das condições de umidade do terreno.
Aeronaves Ipanema, de fabricação nacional, são as mais utilizadas no país, com capacidade para 600 litros de calda, embora aviões agrícolas com maiores capacidades também encontrem-se em operação, especialmente na região dos cerrados.
A precisão é assegurada pela adequada calibração da aeronave, monitorada constantemente pelo piloto através de equipamentos instalados no painel a sua frente, como manômetros, cronômetro e sistema de balizamento orientado por sinais de satélite (DGPS).
Um dos mais recentes estudos para incrementar a precisão das pulverizações aéreas foi desenvolvido por Wellington Carvalho, em sua tese de doutorado na UNESP/Botucatu. O pesquisador avaliou a performance de fluxômetros acoplados ao DGPS da aeronave, que têm por finalidade ajustar automaticamente a quantidade pulverizada por metro de terreno quando ocorre alteração na velocidade de vôo devido a vento alinhado ou relevo ondulado. Os equipamentos já estão sendo utilizados no Brasil e os resultados do estudo indicaram que o controlador de fluxo apresentou índice de erros médio abaixo de 2%, proporcionando acurácia satisfatória na determinação da vazão de calda.
A terceirização do serviço é uma característica muito vantajosa para o agricultor, que não precisa imobilizar recursos com a aquisição de equipamentos e contratação de mão-de-obra, disponibilizando seu capital para outros segmentos da área produtiva. O serviço da aviação agrícola é contratado de acordo com a necessidade do agricultor, que paga apenas pelas aplicações realizadas em sua propriedade.
A transformação da calda em gotas é feita por dispositivos denominados de bicos de pulverização e atomizadores rotativos. Os bicos atuam por energia hidráulica proveniente da bomba de pulverização, sendo mais empregados os que utilizam pontas e difusores para formar um jato tipo cônico e os bicos com discos ajustáveis para regular vazão e tamanho de gotas em jatos com forma plana. Os volumes de aplicação empregados em soja situam-se, na maioria dos casos, entre 10 e 20 L/ha para inseticidas e entre 20 e 30 L/ha para fungicidas e herbicidas.
Os atomizadores rotativos também são muito utilizados para pulverizações aéreas em soja, principalmente para inseticicias e fungicidas. O equipamento possui tambor de tela que gira a altíssima velocidade, fracionando o líquido em gotas. O volume de calda situase entre 10 e 20 L/ha e o espectro de gotas gerado é muito uniforme, atendendo requisitos da tecnologia de aplicação de agroquímicos. Modernamente, estão sendo empregados atomizadores desenvolvidos para atender o mercado de herbicidas, que produzem gotas maiores, devido à substituição do tambor de tela por um conjunto de discos ranhurados.
Outro sistema é o baixo volume oleoso. A tecnologia emprega atomizadores rotativos especialmente projetados e a calda dos agrotóxicos é feita com diluição em óleo degomado. As gotas geradas são muito pequenas, mas não sofrem evaporação como as de água, tendo "vida mais longa", ideais para situações de baixa umidade relativa do ar. O sistema tem sido utilizado na cultura da soja pulverizando volumes de apenas 3 e 7 litros de calda oleosa a cada hectare, para inseticidas e fungicidas, respectivamente.

Aplicações Terrestres

Grandes inovações tecnológicas foram incorporadas nos equipamentos terrestres para pulverizações em soja. A tendência é a utilização crescente da eletrônica embarcada e de acessórios que facilitem a operação.
Os pulverizadores são classificados resumidamente em: acopláveis nos três pontos do trator; de arrasto ou montados sobre carretas; automotrizes ou autopropelidos.
Os acopláveis nos três pontos do trator, em sua maioria, têm tanques com capacidade entre 400 e 800 litros e barras com comprimento entre 10 e 14 metros. São equipamentos mais simples, indicados para áreas de menores dimensões, com custo mais acessível, mas, via de regra, com menos recursos de precisão que os demais. Sua capacidade operacional situa-se ao redor de 20 a 25 hectares por dia.
Um dos maiores limitadores nas aplicações com estes pulverizadores é a oscilação na altura das barras, devido a irregularidades no terreno, fazendo com que às vezes estejam muito altas, causando deriva e evaporação, às vezes muito baixas, concentrando o agroquímico em faixas muito estreitas a cada bico e com risco de danos e entupimento destes componentes.
Bohmer, S. N. avaliou a variação na uniformidade de aplicação com pulverizador de arrasto sob velocidades de 5, 8 e 11 km/h em sua tese de pós-graduação na Argentina. O equipamento, dotado de barras com 18 metros de largura, aplicou o volume da calda médio desejado nos três tratamentos, confirmando que a velocidade não influi neste fator. Porém, avaliações pontuais, ao longo da área tratada, indicaram variações aceitáveis em relação à dose média prevista para as menores velocidades, enquanto para 11 km/h foi atingida a marca de 37,76%, considerado nível muito elevado de desuniformidade na aplicação de agroquímicos.
A maioria dos pulverizadores montados sobre carretas têm tanques com capacidade entre 1000 e 3000 litros, com envergadura de barras entre 12 e 18 metros. Seu rendimento operacional é bem maior por estes motivos e pela maior velocidade de deslocamento (50 a 80 hectares/dia). A oscilação das barras é reduzida através de sistemas de molas e amortecedores em suas bases e por rodados em dois eixos disponíveis em alguns modelos. Barras com comando totalmente hidráulico e assistidas a ar permitem operar em condições de ventos mais fortes, proporcionando grande penetração da pulverização no dossel foliar.
Modernamente, são equipados com reservatório para preparo da calda e lavagem de embalagens sob pressão, tanque com água limpa para lavar as mãos e as embalagens e, em alguns modelos, para lavagem do tanque ao final da aplicação.
Maior precisão pode ser fornecido pelo sistema eletrônico de ajuste de vazão constante, marcadores de espuma e outros dispositivos disponíveis em série ou como opcionais.
Os equipamentos automotrizes constam de um chassi motorizado sob o qual está instalado todo o sistema de pulverização e a cabine de comando, a qual assegura maior conforto ao operador e menor risco de exposição aos produtos.
São máquinas modernas, com tanques de capacidade entre 2000 e 3000 litros, barras com comprimento entre 21 e 25 metros, vão livre do solo de 1,2 metro, possibilidade de ajuste da bitola entre rodas (2 a 2,6 metros) para minimizar o amassamento da cultura e que podem pulverizar a uma velocidade média de 15 km/h, o que confere elevada produtividade à máquina ( 150 a 200 hectares/dia).
Possuem os bons recursos técnicos já citados anteriormente e outros ainda mais modernos, como balizamento orientado por sinais de satélite (GPS). Seu emprego tem sido crescente em regiões como o Brasil central.
Modelos adaptados sobre chassi de trator também têm sido muito utilizados em soja. São máquinas de menor custo, mas de menos capacidade operacional, por trabalharem em velocidades mais reduzidas. Os tanques de 2000 a 3000 litros e barras com larguras entre 15 e 20 metros são os mais utilizados.
Os bicos e respectivas pontas de pulverização disponíveis no mercado, para todos os pulverizadores citados, compõem uma ampla gama de modelos, e não serão apresentados aqui porque necessitam uma descrição detalhada. Para aplicações de herbicidas em soja, destacam-se os que geram gotas com bolhas de ar, com propriedades de reduzida deriva. Para inseticidas e fungicidas, a tendência é o emprego de pontas de jato plano com gotas pequenas, embora as de jato cônico também sejam utilizadas.
Os corpos de fixação dos bicos apresentam válvula antigotejamento e podem conter de 2 a 5 tipos de pontas, ficando o agricultor com a opção de seleção do modelo a utilizar em cada situação. Este recurso é extremamente importante, pois evita contaminação ambiental e permite utilizar vazão e tamanho de gota apropriada para cada tipo de produto e cultura a tratar.
Os equipamentos do tipo canhão possuem ventilador que impulsiona as gotas através de uma corrente de ar, direcionada no sentido do vento. As gotas são pequenas e tratam faixas de até 50 metros. São empregados para pulverizar inseticidas, mas seu uso não tem crescido devido à desuniformidade de deposição, grande dependência das condições ambientais e risco de deriva.

Pulverização Eletrostática

O sistema de pulverização eletrostática opera com gotas carregadas eletricamente, as quais são fortemente atraídas pelas plantas da cultura, incrementando a deposição.
No equipamento aéreo, os bicos hidráulicos geram gotas de pequeno diâmetro (150 mm), as quais, logo depois de formadas, são expostas a um campo elétrico de até 10.000 volts ao redor dos bicos, tornando-se carregadas.
As características do equipamento e os principais resultados de pesquisas no exterior estão descritos no livro "Pulverização eletrostática aérea: Experiência e perspectivas no Brasil", que editamos recentemente, o qual aborda também as principais recomendações a serem seguidas neste sistema de aplicação.
Na tese de doutoramento, desenvolvida junto ao Programa de Pós-graduação em Fitossanidade da Universidade Federal de Pelotas, RS, comprovamos que, para uma mesma dosagem do herbicida glifosate (baixas doses para aplicações seqüenciais), em área de semeadura direta, o controle das plantas daninhas mostrou-se superior em 27% quando a pulverização aérea foi realizada com cargas eletrostáticas.
O volume de calda no sistema eletrostático e no sistema tradicional com bicos modelo CP em aeronave modelo Ipanema, foi de 10 e 30 L/ha, respectivamente, o que resulta em substancial economia de água.
No equipamento terrestre o carregamento do líquido se dá dentro do tanque, antes da pulverização da calda. A corrente elétrica é de aproximadamente 40.000 volts.
Importante pesquisa sobre pulverização eletrostática terrestre foi conduzida recentemente no Brasil por Reinaldo Teodoro de Souza, em sua tese de doutoramento junto a Unesp/Botucatu, SP. O autor pulverizou lavoura de soja em Goiás, com o volume de calda de 50 L/ha. O uso da energia eletrostática no pulverizador Spra-Coupe 3640 uniformizou os depósitos de produto na planta daninha Commelina benghalensis, permitindo propor a redução das doses teóricas de glyphosate necessárias para alcançar altos níveis de controle em área de soja.
Para tornar as operações mais eficientes e seguras, o planejamento das aplicações, aéreas ou terrestres, deve ser realizado previamente. Critérios de segurança e o cumprimento das prescrições contidas no receituário agronômico devem ser levados em conta sempre que se trabalha com produtos tóxicos.
Nas aéreas, aspectos relacionados à segurança de vôo, como operação na pista de pouso e presença de obstáculos perigosos à aeronave, como as redes elétricas nas proximidades e interior das lavouras, precisam ser de conhecimento de todos e estarem devidamente mapeados.
É imprescindível que todas as pessoas envolvidas nas pulverizações saibam exatamente quais suas atribuições e responsabilidades, o que pressupõe treinamento prévio, para assegurar que o trabalho será desempenhado com eficácia. Uma questão muito freqüente refere-se ao custo dos tratamentos fitossanitários. Por vezes o custo é confundido com o desembolso imediato com óleo diesel e trabalhadores, o que deve ser evitado, pois subestima o real valor do tratamento da lavoura.
Nos tratamentos aéreos, só ocorre desembolso quando realmente for necessário contratar o serviço. O agricultor deve combinar o preço da pulverização previamente com a empresa aplicadora.
É possível buscar ferramentas que diminuam este valor tornando o preço da aplicação aérea mais acessível. Entre elas, destaca-se a livre concorrência entre as empresas prestadoras de serviço, possibilitando ao agricultor eleger aquela que ofereça serviço de alta qualidade por valores compatíveis com o mercado. Porém, deve ser evitada a busca sem critérios por preços mais baixos, que por vezes podem levar a contratação de aplicadores menos capacitados.
Mas é a busca pelo incremento do rendimento operacional que deve nortear a ação do administrador rural para reduzir o preço dos tratamentos aéreos em suas lavouras. O custo da hora de vôo agrícola é fixo para cada empresa aplicadora, de modo que o valor da unidade de área a ser tratada pode ser reduzido sensivelmente se forem cobertos mais hectares a cada hora, incrementando a produtividade das aplicações. Tal objetivo pode ser alcançado através da redução no volume de calda aplicada por hectare, distância entre pista de pouso e lavouras, cargas maiores devido à boa conservação da pista de operação, conformação das lavouras, maior largura de faixa tratada a cada vôo sobre a lavoura e adequado planejamento.
Nas pulverizações terrestres a determinação do custo deve levar em conta os seguintes fatores: combustível, mão-de-obra, treinamento, equipamentos de proteção individual, manutenção de equipamentos, depreciação das máquinas, descontaminação e perdas por amassamento da cultura.
Deve-se destacar que o valor de alguns destes itens são mais difíceis de determinar, visto que podem variar muito. Um deles é a manutenção, pois é impossível prever eventuais quebras de componentes do equipamento, as quais trazem significativos aumentos no custo e podem atrasar sobremaneira a pulverização da lavoura.
As perdas por amassamento (que podem variar entre 1 e 4%) são menores com o emprego de pulverizadores automotrizes, com grande largura de barras. Porém, nestes casos os custos com depreciação, mão-de-obra e treinamento são incrementados.
Neste artigo, há um quadro que mostra um indicativo de custo de tratamento com fungicidas em soja para a safra 2003/04. Note-se que o valor, aparentemente maior, da pulverização aérea tem sua diferença reduzida substancialmente em relação a terrestre quando o valor do fungicida é incorporado ao custo do tratamento. A inclusão da estimativa de perda por amassamento na planilha pode fazer com que o tratamento, que parecia ser o mais caro, torne-se o mais vantajoso. Cabe ao agricultor selecionar a técnica mais apropriada para cada situação.

O Meio Ambiente Agradece

A proteção dos trabalhadores envolvidos nas aplicações de agrotóxicos deve ser alvo de atenção dos responsáveis pela assistência técnica nas propriedades rurais, não só pelo fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI), mas, principalmente, pela correta orientação no manuseio dos produtos. Os encarregados do preparo das caldas devem trabalhar sempre de costas para o vento, para que eventuais partículas de pó, gotículas ou vapores não sejam dirigidos para o seu corpo.
A tecnologia de aplicação tem evoluído constantemente, para atender princípios modernos como o manejo integrado de pragas que, entre outras técnicas, prevê o uso racional de pesticidas com a finalidade de produção de alimentos mais saudáveis, a um custo reduzido e preservando a saúde dos trabalhadores e o meio ambiente.
O profundo conhecimento dos problemas fitossanitários, de sua etiologia, dos produtos disponíveis para uso e das modernas técnicas de aplicação exigem profissionais cada vez mais capacitados e agricultores mais informados, com o foco centrado numa agricultura sustentável.

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